terça-feira, 15 de março de 2011

Entre Moldes e Molduras



Educar é quase sempre perguntar qual ser humano queremos formar. Formar é colocar na forma, moldar. Mas também pode ser dar forma. Mas, se analisarmos a própria dimensão humana perceberemos que há formas de dar forma que vão além das formas (dos moldes).

Foi assim que no contato com a natureza e com a cultura conseguimos dar formas diversas e múltiplas ao mundo. E não apenas dar e criar formas, mas atribuir-lhes sentido. Transmitir formas e sentidos (informar), transfigurá-las (transformar).

A transformação só é possível, pois no humano reside à possibilidade de avaliar as ações, pensar o próprio processo do pensar: investigar, prever, problematizar, julgar, etc.

Assim aprendemos o que é bom ou não, bonito ou feio, justo ou injusto. Aprendemos e continuamos aprendendo, pois neste processo contínuo não é possível acomodar as molduras que temos à complexidade da vida que se transforma a cada instante. Dito de outra forma, o que alguns vêem como crise de valores pode indicar apenas a necessidade de pensarmos na inadequação ou adequação das molduras para os fins que almejamos. Isso nos remete, invariavelmente, à reflexão sobre uma educação para valores.

Pergunta-se: Como educar para valores se um vaso sanitário em um canto de um museu pode ser entendido como arte, como expressão do que era sublime e belo? Como educar para valores se a desonestidade é entendida como ordem natural da sobrevivência? Se a desigualdade guia a ação da justiça?

A perplexidade e a indignação que envolve essas questões podem conduzir à tendência de se resgatar princípios universais que imaginamos estarem esquecidos ou adormecidos na educação dos jovens e crianças, tais como solidariedade, honestidade...

Todavia, nenhum princípio moral por mais bem intencionado, fundamentado e sedimentado poderia transformar por si mesmo as ações, pelo simples fato de que tais valores não são entidades, mas criações que surgem da necessidade humana de viver e conviver, da necessidade do homem de pensar-se a si mesmo. Não é a toa que os Parâmetros Curriculares Nacionais emprestam da filosofia os elementos que permitiriam delinear um conceito de cidadania.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais a cidadania deve ser entendida em três dimensões: ética, estética e política. Estética no sentido do exercício de sensibilidade; ética no sentido de construção de identidade autônoma e; política, visando à participação democrática através do acesso aos bens culturais e naturais. Desenvolver a sensibilidade, a identidade autônoma e a participação democrática é o desafio da educação que coincide com o desafio de devolver ao homem sua própria imagem: de ser que cria, avalia e transforma.

A possibilidade de mediação entre o vivido e o pensado tem na arte um lugar privilegiado. A síntese criativa, a comunhão entre o sujeito e natureza tem no sentimento a via de acesso da experiência estética. O sentimento provocado pela experiência estética alarga as fronteiras do vivido, de um mundo que se descortina em profundidade na medida em que é possível extrair o objeto do seu contexto e o relacionar a um horizonte único. Por isso afirma Sartre:

A obra jamais se limita ao objeto pintado, esculpido ou narrado; assim como só percebemos as coisas sobre o fundo do mundo, também os objetos representados pela arte aparecem sobre o fundo do universo. Se o pintor nos apresenta um campo ou vaso de flores, seus quadros são janelas abertas para o mundo inteiro (...) O objeto estético é propriamente o mundo, na medida em que é visado através dos imaginários, a alegria estética acompanha a consciência de que o mundo é um valor, isto é, uma tarefa proposta à liberdade humana.”

Ora, se a arte alarga o sentido e o sentimento do mundo é porque a liberdade se impõe como marca do que somos e fazemos. No exercício dessa liberdade é que avaliamos o que nos serve ou não para a convivência, formulamos regras, estabelecemos modelos de conduta que nos permitem a vida em sociedade. A esse conjunto de valores, normas, regras denominamos moral. A moral prescreve o que devemos ou não devemos fazer diante dos diferentes grupos sociais a que pertencemos. Sendo assim, é comum guiarmos nossas ações pelo reconhecimento social do grupo em que estamos inseridos. Nessas relações aprendemos o que é bom ou mal, certo ou errado, justo ou injusto. Por isso, afirmava Aristóteles que somente o exercício de bons hábitos entre os jovens poderia moldar o caráter voltado para as virtudes, ou seja, a educação moral seria fundamental para a formação do caráter e da identidade.

Mas é preciso considerar que a identidade também se forma na diversidade. Família, escola, meios de comunicação de massa expõem crianças e jovens a modelos de conduta diversos e, por vezes, contraditórios. Se a vida constantemente nos apresenta escolhas é preciso saber distinguir qual a melhor forma de agir, essa é a tarefa da ética enquanto reflexão da moral.

Se a moral é o exercício do dever, a ética é o exercício do querer consciente de suas implicações e conseqüências. Não se trata de doutrinar, mas de buscar formas de favorecer a autonomia moral. Em outras palavras, mais do que ensinar o certo ou errado seria preciso criar condições para que crianças e jovens possam pensar por si mesmas as condições e conseqüências de suas escolhas.

Favorecer o diálogo é um importante instrumento para passarmos da conduta heterônoma para a autônoma. Na conduta heterônoma agimos guiados pela força do que esperam de nós. Neste caso, é fácil de entender porque na ausência da autoridade crianças, jovens e adultos apresentam comportamentos considerados imorais ou não adequados. Investigar e compreender porque a saúde dentária é importante é diferente de escovar os dentes quando a mãe manda.

No diálogo investigativo o exercício da racionalidade se dá entre os envolvidos e não apesar dos envolvidos. O comprometimento dos membros de um grupo com uma situação verdadeiramente problemática implica na necessidade de se admitir os conflitos, avaliá-los e buscar soluções; portanto, de exercitar a autonomia do pensar. Ora, se a moral nos apresenta valores, avaliar os valores, aprender a valorar é fundamental para a investigação ética que tem um espaço promissor no diálogo.

Certa vez fui interrompida por uma educadora que dizia ser impossível falar de ética com seus alunos, pois enquanto ela ensinava que o exercício da violência era errado, os pais afirmavam que os filhos deveriam bater para aprenderem a se defender. Trata-se, novamente, de tentar adequar o quadro à moldura. Mas por que não investigar com as crianças quando é preciso se defender e qual seria a maneira mais adequada de fazê-la? A defesa seria uma forma de violência? O que é violência?

Creio que o exercício da investigação como forma de se pensar os valores nos conduza a terceira dimensão da cidadania que nos apresenta os Parâmetros Curriculares Nacionais . Não há diálogo quando não nos dispomos a considerar os conflitos, quando temos a verdade guardada no bolso para sacá-la no momento conveniente, quando consideramos a razão do outro como ameaça. Desta forma, a formação de uma estrutura igualitária que considere a diversidade como fundamental para a construção coletiva poderia transformar a própria educação em democracia e não simplesmente em promessa de um ideal democrático. Por fim, se o homem é um ser de valores, pensar os valores humanos é a tentativa de nos reconhecer no espelho e mudar a imagem se necessário, ou seja, mais que transformar, ensinar a transformar.



Dalva Aparecida Garcia Docente do Ensino Médio na Rede Pública Estadual. Coordenadora Pedagógica do Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças; Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista - Marília, UNESP; Mestra em Filosofia e Educação pela Faculdade de Educação da USP/SP, FEUSP; e-mail: dalva@cbfc.org.br

quinta-feira, 3 de março de 2011

A importância de politizar os estudantes

Em meu governo a prioridade é a educação. Para que possamos crescer temos que investir em educação. Os países que mais evoluíram nas últimas décadas conseguiram isso por investirem na educação. Revolucionaremos o sistema educacional com mudanças grandiosas. Teremos a melhor educação do país e, até mesmo do mundo, em meu futuro governo...
Praticamente todos os políticos assumem a educação como prioridade em seus discursos de campanha. Fala-se sempre que uma maior quantidade de verbas será destinada à educação em mandatos futuros. Não há uma pessoa sensata (mesmo entre os políticos, se bem que é um tanto quanto difícil imaginar sensatez no reino dos insensatos...) que seja capaz de dissociar a idéia de progresso de um país de consistentes investimentos e de projetos maduros e sérios para a educação.
Há, no entanto, uma grandiosa diferença entre o que é apregoado na propaganda política gratuita na televisão e nos comícios em relação ao que vemos em nossas escolas e redes públicas de ensino. Não se pode negar que algumas mudanças aconteceram, mas será que foram realmente efetivas para transformar o perfil do estudante que estamos formando?
A adoção de novas tecnologias, a modernização do discurso, o investimento em cursos de aperfeiçoamento e atualização do magistério, as provas nacionais que avaliam o desempenho do ensino em seus vários níveis, o programa universidade para todos e tantos outros projetos desenvolvidos pelo atual governo e pela gestão anterior efetivaram as transformações que levaram ao surgimento de um estudante que lê, escreve, compreende e articula-se melhor?
Ou será que esse propósito não é a prioridade da educação brasileira? Para que tantos computadores, exames, bolsas de estudo, cursos para os professores e até mesmo escolas recém-construídas se os nossos alunos continuam escrevendo errado, apresentando dificuldades na leitura, interpretando mal, tendo resultados pífios em matemática (ciências, história, geografia,...) ou, ainda pior, sendo incapazes de entender a realidade em que se inserem a ponto de não compreender o que significam escândalos como o mensalão ou a máfia dos sanguessugas?
A perpetuação de um sistema educacional que não ensina as nossas crianças a ler, escrever, interpretar e articular suas idéias é a chaga que propaga em nosso país males como a corrupção, a violência e a miséria.
É corrente em algumas redes de ensino a idéia de que os professores fingem que ensinam, os alunos simulam a aprendizagem e os resultados falseiam a realidade. A conseqüência mais evidente desse autêntico drama brasileiro é que os votos da população menos (ou não) esclarecida acabam dando sobrevida a políticos que não têm a mínima intenção de aperfeiçoar ou melhorar a educação ou qualquer outra instância da realidade nacional.
Quando ouvimos uma pessoa dizer que um determinado político “rouba, mas faz” - temos que nos indignar e articular respostas e reflexões que ajudem a pessoa a mudar de opinião. Quando ficamos sabendo que alguém vai trocar seu voto por algum favor ou benefício material, temos que nos mobilizar para que isso não aconteça...
E não podemos simplesmente esperar que o voto, por si só, seja capaz de promover as alterações que desejamos para o país ou para a educação. Participamos da democracia quando votamos e, principalmente, a partir do momento que fiscalizamos e cobramos as autoridades quanto aos projetos, idéias e necessidades de nossas comunidades, cidades, estados e país.
A educação é momento primordial de esclarecimento não apenas dos conhecimentos previstos no currículo oficial através de cada disciplina. Os anos de chumbo da ditadura ajudaram a silenciar nossa consciência crítica, a televisão que esvazia os nossos discursos e tolhe o diálogo nos imobiliza e isola, as mentiras e omissões dos políticos se repetem e nos insensibilizam de tão freqüentes e impunes.
Se pensamos a educação como o instrumento da mudança, da renovação e da ética, na realidade temos um sistema educacional que repete, promove e valida o jogo político em que estamos inseridos. Os professores, teoricamente os maiores responsáveis pela configuração de uma realidade cidadã e digna, sucumbem perante as atribuições do cotidiano. Não há tempo para refletir, discutir ou debater a realidade do país. Temos provas a corrigir, aulas para preparar, diários que devem ser atualizados, reuniões,...
A tarefa de educar politicamente nossas novas gerações não é e, em curto prazo, não parece ser um objetivo das classes dirigentes ou mesmo dos próprios educadores. Desprovidos de poder de crítica como poderemos distinguir o joio do trigo e definir os rumos de uma cidadania ética e digna para o nosso país?
Nem mesmo os próprios professores estão sendo preparados para atuar na sociedade de forma questionadora, incisiva e participativa como deveriam. As universidades que preparam as novas gerações de educadores do Brasil estão preocupadas apenas em “conteudizar” os seus formandos e torná-los aptos para entrar no mercado de trabalho para que demonstrem suas competências e habilidades...
Somos devorados pela dinâmica do sistema. A opressão se abate sobre nós e nem nos damos conta. Caminhamos, todos os dias, em direção ao abatedouro, de forma silenciosa, conformados com o que acontece ao nosso redor, não querendo causar polêmica ou parecer contrariar a ordem e o discurso uníssono que pede a todo o momento que busquemos consensos...
A democracia pressupõe o embate de idéias. Num sistema político como o nosso devem existir opiniões que realmente se contraponham e que concedam alternativas e respostas múltiplas para as várias e importantes questões nacionais. Quando políticos e candidatos falam basicamente a mesma coisa passamos a não ter alternativas que viabilizem esse amplo debate e que, como conseqüência disso, nos permitam pensar e repensar os rumos de nossa nação.
A educação deve ser o instrumento que realmente nos permita pensar a realidade nacional e nos posicionar quanto a ela. Mas, o que podemos esperar de nossa educação se nem mesmo seus artífices, os professores, demonstram a articulação, a clareza, o senso crítico e a propensão ao debate que deles se espera?
Nossos estudantes aprendem muito mais a partir de nossas palavras se elas são acompanhadas de atitudes que comprovem a necessária coerência entre teoria e prática que tanto advogamos. Não adianta nada dizer que temos que empreender mudanças e repensar a nação se nossas atitudes não demonstram essa busca ou crença. Se você quer realmente mudar o país não apenas diga ou pense isso, precisamos de mais ação e de menos discurso...
Somos seres políticos como preconizaram os gregos há tanto tempo. Mesmo quando agimos apoliticamente estamos promovendo uma prática que tem conseqüências para todos. Se votamos nulo ou em branco estamos propiciando a vitória daqueles que lideram as corridas eleitorais (pessoas em relação as quais, várias vezes, temos muitas reservas e que acabaram motivando essa nossa escolha ao votarmos).
Se o nosso voto é “de protesto”, como dizem muitos hoje em dia ao escolher um candidato que não tem nenhuma chance de vencer ou que folcloricamente vende sua imagem através da propaganda política obrigatória no rádio ou na televisão, também estamos beneficiando aos primeiros colocados nas pesquisas que por nós são rejeitados...
Se votamos nos primeiros colocados nas pesquisas para “não perder o voto” como pensam tantos outros, sem analisar suas propostas, pensar a história de vida desses candidatos ou acompanhar sua trajetória política, estamos condenando o país a continuar pagando caro por nossos erros e, ao mesmo tempo, legamos as futuras gerações todos os problemas que persistem entre nós há tanto tempo...
A educação tem que assumir-se política. Tanto no que se refere aos professores, que não podem silenciar-se e eximir-se quanto a seus posicionamentos e idéias (sem que tentem doutrinar seus alunos e permitindo a eles conhecer e pensar variadas alternativas e proposições políticas), quanto através de seu currículo, que preveja a politização dos estudantes nas disciplinas e aulas...

Fonte: planeta educação

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Participação dos Pais na Escola Influencia Uma Melhor Aprendizagem



Este texto tem a intenção de enfocar a importância dos pais na escola, analisando a importância do trabalho conjunto família-escola no processo ensino-aprendizagem.
Mas quais são as várias causas dos problemas de aprendizagem da criança?
O desenvolvimento infantil é um processo global. É evidente que as dificuldades de aprendizagem estão relacionadas tanto às características próprias da criança, quanto às atitudes inadequadas da família e da escola que afetam a criança enquanto pessoa em desenvolvimento.
“A criança que desde cedo, tem contato com outra, é sabidamente mais sociável, menos egocêntrica e mais tolerante. Viver em grupo é altamente positivo.
Toda criança começa a aprender a partir do nascimento e, desde então, vai construindo a sua modalidade de aprendizagem no convívio familiar, com decorrência de alguns fatores, como as trocas emocionais, a aprendizagem social, a observação e a imitação são processos importantes que se efetivam nesse contato.
Naturalmente que, depois da família, é na escola que as crianças permanecem mais tempo, e as expectativas em relação ao seu desempenho escolar aumentam, assumindo maior importância na vida em família.
Mas não compete apenas à escola a função de educar, mas também à família em primeiro lugar. E se hoje se tem a sobrecarga da vida moderna, é sumamente importante lembrar que o que vale não é o tempo que se passa junto com os filhos, mas a maneira como estabelecem as relações com eles.
Isso é o que importa, pois se os filhos sabem que podem contar com os a pais quando necessitarem, se os pais têm uma parte do seu tempo diário e de lazer reservado para dar atenção e conversar com os filhos, se os limites são estabelecidos com flexibilidade e justiça, sem culpas ou necessidades compensatórias, pode-se esperar, então, menor probabilidade de problemas.
Considerar-se-á que o principal agente de formação da criança é a família. Porém que a crise que a família vem enfrentando por todas essas transformações que teve, alteraram profundamente a qualidade de vida da criança.
A desestrutura familiar permeia a nossa sociedade o que influencia diretamente na formação primeira da criança, pais separados têm uma grande influência no desenvolvimento psicológico, emocional e afetivo das nossas crianças.
Uma boa comunicação entre pais e filhos exige em primeiro lugar, traduzir o amor, respeito, confiança, atenção e atender as suas necessidades básicas. Com essa participação dos pais no processo de ensino-aprendizagem, ela ganha mais confiança, vendo que todos se interessam por ela, e também porque você passa a conhecer quais são as dificuldades e quais os conhecimentos que ela tem.
Comunicar-se com os filhos é dar apoio, conhecer as suas dificuldades, verificar pelo que eles estão passando, estimulando suas potencialidades, dando liberdades e incentivo, e respeitando os sentimentos da criança.
A família que propicia curiosidade em seus filhos, desde pequeno, valorizando suas atitudes e criando situações para que eles estabeleçam relações e desenvolvam o pensamento científico, em sua rotina, é uma família que sempre valoriza e respeita as atividades relacionadas á vida escolar de seus filhos.
Um dos problemas que afeta as crianças no desempenho escolar é a falta dos pais no processo de aprendizagem, e não pela situação financeira, mas sim, o desinteresse, a falta de tempo por causa do trabalho, a falta de apoio, de carinho e amor, causam fracasso no processo educativo de seu filho, até mesmo desanima o aluno; áreas que precisam ser trabalhadas junto ao aluno e a família, o que impede o bom desempenho das funções da escola.
O que tem acontecido com as famílias na sociedade global?
Os pais precisam ter certeza de que educar é importante. Acreditar que colocar limites, apresentar valores, despertar desejos nos filhos é iniciar o processo de compreensão do mundo e convivência com o outro.


Júlia Aparecida Séccolo é pedagoga com Pós-Graduação Lato Senso – Gestão Educacional, formada em Programação Neurolinguistica e é formada internacionalmente em Coaching, atuando em Treinamentos, Palestras e Workshops.

 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LIBERDADE: UMA CONQUISTA DA EDUCAÇÃO


A sonhada liberdade humana qualifica-se como uma conquista e não uma doação. É uma atitude que exige uma busca permanente. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Se a liberdade vem do próprio homem, e a educação é o caminho para alcançá-la, então ninguém tem liberdade para ser livre. Pelo contrário, devemos acreditar e buscar na conscientização o valor supremo de nossa existência. Porém, só atinge este grau de amadurecimento, quem possui uma consciência justa de cada ser humano. E para isso, mais uma vez, precisamos de uma educação que nos abra o caminho e nos mostre novos horizontes. Afirmamos que a educação é co-participante e co-responsável pelos rumos tomados pela humanidade. Ela é quem age sobre o homem fazendo com que o mesmo reflita sobre si e sobre seu papel cultural, enfim, sobre o meio em que vive. A educação pode ser definida como o processo em que o homem chega a ser homem. A finalidade da educação é desenvolver, em cada indivíduo, toda a perfeição de que ele seja capaz. Isso significa, deixar transparecer todo vigor enquanto ser perfeito que é. É evidente a grande e importante participação da educação no campo formativo do homem. Quando falamos em formação do homem, entendemo-na principalmente no sentido de restabelecer seus valores, fazendo com que o mesmo possa conscientizar-se de que a liberdade é uma questão de essência, e não é domínio de alguns apenas. Todo homem em sua essência é um ser livre. Assim, a educação deve servir de instrumento para o homem ser capaz de agir sobre o mundo e ao mesmo tempo ter clareza da ação exercida, para que tendo sido influenciado em sua natureza, não venha sofrer ele mesmo, qualquer conseqüência ou prejuízo. A educação e a liberdade são inseparáveis. Por um lado, porque a liberdade não é nenhuma coisa que é dada, mas uma conquista do homem ao longo de seu amadurecimento, de modo que ele vai descobrindo a liberdade como pertencente a seu ser. Por outro lado, a educação só é importante quando está voltada para liberdade do ser humano. Caso contrário, está não poderia ser considerada como educação, visto que sua prática seria de adestramento ou doutrinação. Deste modo, não deveria ser classificada como educação, ou como processo formativo do homem. Afinal, educar não é dirigir alguém para um determinado ponto, mas dar condições para que este alguém encontre e faça seu próprio caminho. Educar para a liberdade consiste em que cada um tenha a possibilidade de ver em cada homem não sua limitação, mas a realização da sua liberdade. A educação não pode ser separada da vida, nem é preparação para a vida, mas é a vida mesma. Assim, educar não é dirigir alguém para um determinado ponto que se escolheu, mas dar condições para que o outro se encontre e trilhe seu caminho. Aqui habita a grandeza da educação. Se o homem é realmente livre, nada deve impedi-lo de errar, assim como não podemos dar um limite final para a educação. O seu fim se dará no processo em que o homem chega a ser homem. Isto é, desenvolvendo em cada indivíduo aquilo que ele já é em potencial. A liberdade é necessária, gratuita e inocente. Necessária porque podemos escolher tudo, salvo o não escolher. Com efeito: "somos condenados a ser livres". Gratuita, porque não se dirige a valores preexistentes, mas cria os valores escolhendo-os. E finalmente, inocente, pois é escolhida livremente. Aqui está afixado o espírito da educação, o educar é seu dever e a liberdade é sua meta e objetivo.

Fonte: http://pt.shvoong.com/humanities/1632430-liberdade-uma-conquista-da-educa%C3%A7%C3%A3o/

A ESCOLA


"Escola é...
o lugar onde se faz amigos
não se trata só de prédios, salas, quadros,
programas, horários, conceitos...
Escola é, sobretudo, gente,
gente que trabalha, que estuda,
que se alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente,
O coordenador é gente, o professor é gente,
o aluno é gente, cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
na medida em que cada um
se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de ‘ilha cercada de gente por todos os lados’.
Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir
que não tem amizade a ninguém
nada de ser como o tijolo que forma a parede,
indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
é também criar laços de amizade,
é criar ambiente de camaradagem,
é conviver, é se ‘amarrar nela’!
Ora, é lógico...
numa escola assim vai ser fácil
estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se,
ser feliz."


Paulo Freire

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Ler no meio do caos



Por  José Manuel Moran

Especialista em projetos de mudança na educação presencial e a distância
Diretor de Educação a Distância da Universidade Anhanguera-Uniderp

Num mundo tão complexo, é necessário aprender a ler de muitas formas, de perspectivas diferentes, para poder entender o que se passa sob a superfície movediça dos múltiplos e incessantes acontecimentos.

É fascinante encontrar sentido no aparente caos, captar a dinâmica dos movimentos, o que é permanente por trás da mutação. Esse é um dos desafios de hoje: conseguir acompanhar as múltiplas interfaces da informação e mergulhar nas suas entrelinhas, nas profundezas dos significados ocultos e escorregadios.

Ler depende, além do domínio técnico, de ter uma atitude curiosa diante da vida, do mundo, das pessoas. A curiosidade nos motiva a ler, a conhecer, a pesquisar. Ler é um prazer quando queremos saber mais, investigar mais, descobrir ângulos diferentes, indo além do óbvio.

Quanto mais informação disponível, mais complexo se torna o ato de ler. Primeiro, porque precisamos escolher o tempo todo, eliminando a maior parte do que se apresenta à nossa frente. Sempre estaremos acometidos pela dúvida da validade das escolhas feitas: Por que não ler outros textos, outras páginas? Quantas informações relevantes estamos excluindo quando teclamos novos clicks?

Após essa triagem constante, continua a dúvida: o que ler rapidamente, só para um acompanhamento rápido e o que ler com calma, com tempo, com cuidado? Em geral, pela premência do tempo, o que consideramos importante o salvamos, para lê-lo depois com mais atenção. E quando conseguimos retomar de verdade a leitura do que salvamos, se há tantos novos estímulos e materiais que se sobrepõem aos que estávamos mapeando?

Em geral hoje lemos muitas mais coisas, ouvimos e vemos muitas histórias diferentes. É um redemoinho informativo incessante. Mas... aprendemos muito, conhecemos de verdade, compreendemos profundamente o que lemos?

O ritmo frenético de atividades, de exigência de respostas para tudo, de quebra de atenção por chamadas, mensagens, vídeos, solicitações múltiplas dificulta sobremaneira a necessária concentração para a compreensão profunda. Conhecemos muitas coisas, só que mais superficialmente. Como tudo está ao alcance de um click parece que é fácil conhecer. É fácil mapear a informação; difícil é conhecer, compreender os seus múltiplos significados.

Hoje aprendemos juntos, conectados, através de redes sociais. O intercâmbio é fascinante. Esse fluir contínuo da informação do Twitter ou Facebook é inebriante, porque nos coloca em contato instantâneo com múltiplos mundos, perspectivas, assuntos, pessoas. O perigo está na empolgação da fascinação do ritmo alucinante das mensagens e da falta de concentração e tempo para aprofundar as que são mais significativas. Boa parte do fluir informativo é redundante e banal; não vale a pena dedicar-lhe tanto tempo. Há muito narcisismo, deslumbramento, exibicionismo nas redes sociais, junto com contribuições relevantes, que são pérolas pontuais no meio de um deserto de areia movediça.

No meio dessa voragem informacional é importante manter algumas referências básicas, alguns textos e autores fundamentais e voltar a eles com freqüência. É importante quebrar o ritmo do caleidoscópio informativo para meditar, pensar, analisar, perceber, decantar, concluir. Sem esses tempos de quebra de ritmo, corremos o risco de sermos levados pelas sucessivas ondas, sem saber surfá-las.

Quanta mais informação, mais difícil e complexo se torna o ato de ler e mais necessário se faz aprender a ler de muitas formas, integrando múltiplas linguagens e mídias, de forma muito mais rica e profunda.
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Texto inspirado no meu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 4ª ed., Campinas: Papirus, 2009.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Educação Possível


Educação é algo bem mais amplo do que escola. Começa em casa, onde precisam ser dadas as primeiras informações sobre o mundo. Continua na vida pública, nem sempre um espetáculo muito edificante na qual vemos políticos concedendo-se aumentos em cima de seus já polpudos salários, enquanto professores recebem salários escrachadamente humilhantes, e artistas fazendo propaganda de bebida num momento em que médicos, pais e responsáveis lutam com a dependência química de milhares de jovens. Que é público mesmo que não queira, é modelo: artistas, líderes, autoridades. Não precisa ser hipócrita nem santarrão, mas precisa ter consciência de que seus atos repercutem, e muito. Estamos tristemente carentes de bons modelos: milhares buscam alguém que lhes possa transmitir a esperança de que retidão, dignidade, incorruptibilidade, ainda existem.
Mas vamos à educação nas escolas: o que é educar? Como deveria ser uma boa escola? Como se forma e se mantêm um professor eficiente, como se preparam crianças e adolescentes para este mundo competitivo onde todos têm direito de construir sua vida e desenvolver sua personalidade?
É bem mais simples do que todas as teorias confusas e projetos inúteis que se nos apresentam. Não sou contra colocarem um computador em cada sala de aula neste reino das utopias, desde que, muito mais e acima disso, saibamos ensinar aos alunos o mais elementar, que independe de computadores: nasce dos professores, seus métodos, sua autoridade, sem entusiasmo e seus objetivos claros. A educação benevolente e frouxa que hoje predomina nas casas e escolas prejudica mais do que uma sala de aula com teto e chão furados e livros aos frangalhos. Estudar não é brincar, é trabalho. Para brincar temos o pátio e o bar da escola, a casa.
Sair do Ensino Fundamental tendo alguma consciência de si, dos outros, da comunidade onde se vive, conseguindo contar, ler escrever e falar bem (não dá para esquecer isso, gente!) e com naturalidade, para se informar e expor seu pensamento, é um objetivo fantástico. As outras matérias, incluindo as artísticas, só terão valor se o aluno souber raciocinar, avaliar, escolher e se comunicar dentro dos limites de sua idade.
No segundo grau, que encaminha para a universidade ou para algum curso técnico superior, o leque de conhecimento deve aumentar. Mas não adianta saber história ou geografia americana, africana ou chinesa sem conhecer bem a nossa, nem falar vários idiomas se nem sequer dominamos o nosso. Quer dizer, não conseguimos nem nos colocar como indivíduos em nosso grupo nem saber o que acontece, nem argumentar, aceitar ou recusar em nosso próprio benefício, realizando todas as coisas que constituem o termo tão em voga e tão mal aplicado: “cidadania”.
O chamado terceiro grau, a universidade, incluindo conhecimentos especializados, tem seu fundamento eficaz nos dois primeiros. Ou tudo acabará no que vemos: universitários que não sabem ler e compreender um texto simples, muito menos escrever de forma coerente. Universitários, portanto, incapazes de ter um pensamento independente e de aprender qualquer matéria, sem sequer saber se conduzir. Profissionais competindo por trabalhos, inseguros e atordoados, logo, frustrados.
Sou de família de professores universitários. Fui por dez anos titular de lingüística em uma faculdade particular. Meu desgosto pela profissão – que depois abandonei, embora gostasse do contato com os alunos – deveu-se em parte à minha dificuldade de me enquadrar (ah, as chatíssimas e inócuas reuniões de departamento, o caderno de chamada, o currículo, as notas...) e em parte ao desalento. Já nos anos 70 recebíamos na universidade jovens que mal conseguiam articular frases coerentes, muito menos escrevê-las. Jovens que não sabiam raciocinar nem argumentar, portanto incapazes de assimilar e discutir teorias. Não tinham cultura nem base alguma, e ainda assim faziam a faculdade, alguns com sacrifício, deixando-me culpada quando os tinha de reprovar.
Em tudo isso, estamos melancolicamente atrasados. Dizem que nossa economia floresce, mas a cultura, senhores, que inclui a educação (ou vice-versa, com queiram...), anda mirrada e murcha. Mais uma vez, corrigir isso pode ser muito simples. Basta vontade real. Infelizmente, isso depende dos políticos, depende dos governos. Depende de cada um de nós, que os escolhemos e sustentamos.

LUFT, Lya. A educação possível. Veja. Ano 40, nº 20, edição 2009. São Paulo: Abril, maio/2007, p. 22.