terça-feira, 15 de março de 2011

Entre Moldes e Molduras



Educar é quase sempre perguntar qual ser humano queremos formar. Formar é colocar na forma, moldar. Mas também pode ser dar forma. Mas, se analisarmos a própria dimensão humana perceberemos que há formas de dar forma que vão além das formas (dos moldes).

Foi assim que no contato com a natureza e com a cultura conseguimos dar formas diversas e múltiplas ao mundo. E não apenas dar e criar formas, mas atribuir-lhes sentido. Transmitir formas e sentidos (informar), transfigurá-las (transformar).

A transformação só é possível, pois no humano reside à possibilidade de avaliar as ações, pensar o próprio processo do pensar: investigar, prever, problematizar, julgar, etc.

Assim aprendemos o que é bom ou não, bonito ou feio, justo ou injusto. Aprendemos e continuamos aprendendo, pois neste processo contínuo não é possível acomodar as molduras que temos à complexidade da vida que se transforma a cada instante. Dito de outra forma, o que alguns vêem como crise de valores pode indicar apenas a necessidade de pensarmos na inadequação ou adequação das molduras para os fins que almejamos. Isso nos remete, invariavelmente, à reflexão sobre uma educação para valores.

Pergunta-se: Como educar para valores se um vaso sanitário em um canto de um museu pode ser entendido como arte, como expressão do que era sublime e belo? Como educar para valores se a desonestidade é entendida como ordem natural da sobrevivência? Se a desigualdade guia a ação da justiça?

A perplexidade e a indignação que envolve essas questões podem conduzir à tendência de se resgatar princípios universais que imaginamos estarem esquecidos ou adormecidos na educação dos jovens e crianças, tais como solidariedade, honestidade...

Todavia, nenhum princípio moral por mais bem intencionado, fundamentado e sedimentado poderia transformar por si mesmo as ações, pelo simples fato de que tais valores não são entidades, mas criações que surgem da necessidade humana de viver e conviver, da necessidade do homem de pensar-se a si mesmo. Não é a toa que os Parâmetros Curriculares Nacionais emprestam da filosofia os elementos que permitiriam delinear um conceito de cidadania.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais a cidadania deve ser entendida em três dimensões: ética, estética e política. Estética no sentido do exercício de sensibilidade; ética no sentido de construção de identidade autônoma e; política, visando à participação democrática através do acesso aos bens culturais e naturais. Desenvolver a sensibilidade, a identidade autônoma e a participação democrática é o desafio da educação que coincide com o desafio de devolver ao homem sua própria imagem: de ser que cria, avalia e transforma.

A possibilidade de mediação entre o vivido e o pensado tem na arte um lugar privilegiado. A síntese criativa, a comunhão entre o sujeito e natureza tem no sentimento a via de acesso da experiência estética. O sentimento provocado pela experiência estética alarga as fronteiras do vivido, de um mundo que se descortina em profundidade na medida em que é possível extrair o objeto do seu contexto e o relacionar a um horizonte único. Por isso afirma Sartre:

A obra jamais se limita ao objeto pintado, esculpido ou narrado; assim como só percebemos as coisas sobre o fundo do mundo, também os objetos representados pela arte aparecem sobre o fundo do universo. Se o pintor nos apresenta um campo ou vaso de flores, seus quadros são janelas abertas para o mundo inteiro (...) O objeto estético é propriamente o mundo, na medida em que é visado através dos imaginários, a alegria estética acompanha a consciência de que o mundo é um valor, isto é, uma tarefa proposta à liberdade humana.”

Ora, se a arte alarga o sentido e o sentimento do mundo é porque a liberdade se impõe como marca do que somos e fazemos. No exercício dessa liberdade é que avaliamos o que nos serve ou não para a convivência, formulamos regras, estabelecemos modelos de conduta que nos permitem a vida em sociedade. A esse conjunto de valores, normas, regras denominamos moral. A moral prescreve o que devemos ou não devemos fazer diante dos diferentes grupos sociais a que pertencemos. Sendo assim, é comum guiarmos nossas ações pelo reconhecimento social do grupo em que estamos inseridos. Nessas relações aprendemos o que é bom ou mal, certo ou errado, justo ou injusto. Por isso, afirmava Aristóteles que somente o exercício de bons hábitos entre os jovens poderia moldar o caráter voltado para as virtudes, ou seja, a educação moral seria fundamental para a formação do caráter e da identidade.

Mas é preciso considerar que a identidade também se forma na diversidade. Família, escola, meios de comunicação de massa expõem crianças e jovens a modelos de conduta diversos e, por vezes, contraditórios. Se a vida constantemente nos apresenta escolhas é preciso saber distinguir qual a melhor forma de agir, essa é a tarefa da ética enquanto reflexão da moral.

Se a moral é o exercício do dever, a ética é o exercício do querer consciente de suas implicações e conseqüências. Não se trata de doutrinar, mas de buscar formas de favorecer a autonomia moral. Em outras palavras, mais do que ensinar o certo ou errado seria preciso criar condições para que crianças e jovens possam pensar por si mesmas as condições e conseqüências de suas escolhas.

Favorecer o diálogo é um importante instrumento para passarmos da conduta heterônoma para a autônoma. Na conduta heterônoma agimos guiados pela força do que esperam de nós. Neste caso, é fácil de entender porque na ausência da autoridade crianças, jovens e adultos apresentam comportamentos considerados imorais ou não adequados. Investigar e compreender porque a saúde dentária é importante é diferente de escovar os dentes quando a mãe manda.

No diálogo investigativo o exercício da racionalidade se dá entre os envolvidos e não apesar dos envolvidos. O comprometimento dos membros de um grupo com uma situação verdadeiramente problemática implica na necessidade de se admitir os conflitos, avaliá-los e buscar soluções; portanto, de exercitar a autonomia do pensar. Ora, se a moral nos apresenta valores, avaliar os valores, aprender a valorar é fundamental para a investigação ética que tem um espaço promissor no diálogo.

Certa vez fui interrompida por uma educadora que dizia ser impossível falar de ética com seus alunos, pois enquanto ela ensinava que o exercício da violência era errado, os pais afirmavam que os filhos deveriam bater para aprenderem a se defender. Trata-se, novamente, de tentar adequar o quadro à moldura. Mas por que não investigar com as crianças quando é preciso se defender e qual seria a maneira mais adequada de fazê-la? A defesa seria uma forma de violência? O que é violência?

Creio que o exercício da investigação como forma de se pensar os valores nos conduza a terceira dimensão da cidadania que nos apresenta os Parâmetros Curriculares Nacionais . Não há diálogo quando não nos dispomos a considerar os conflitos, quando temos a verdade guardada no bolso para sacá-la no momento conveniente, quando consideramos a razão do outro como ameaça. Desta forma, a formação de uma estrutura igualitária que considere a diversidade como fundamental para a construção coletiva poderia transformar a própria educação em democracia e não simplesmente em promessa de um ideal democrático. Por fim, se o homem é um ser de valores, pensar os valores humanos é a tentativa de nos reconhecer no espelho e mudar a imagem se necessário, ou seja, mais que transformar, ensinar a transformar.



Dalva Aparecida Garcia Docente do Ensino Médio na Rede Pública Estadual. Coordenadora Pedagógica do Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças; Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista - Marília, UNESP; Mestra em Filosofia e Educação pela Faculdade de Educação da USP/SP, FEUSP; e-mail: dalva@cbfc.org.br

4 comentários:

  1. Malu querida,
    Frequento o seu blog mas muitas vezes não deixo comentários. Leio, aprecio e reflito. Acredito que ao professor é dada a oportunidade de poder "salvar" muitas almas. Meu marido é professor em uma cidadezinha do nordeste, cheia de paradoxos. Infelizmente a droga e prostituição são coisas comuns, mas vejo, que a maioria das crianças são sementes de bons adultos. Tentamos cultivar a cidadania, o respeito mútuo. Há que ter sensibilidade. Acredito que educar é o ato mais nobre que o ser humano pode exercer. Parabéns pelo seu blog, por sua inteligência e entrega a este ministério.
    um abraço

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  2. ...pude hablar conocer y sentir al
    maesro Paulo Freire en persona
    siempre estará su luz y belleza Malú
    conmigo...


    ...traigo
    sangre
    de
    la
    tarde
    herida
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    COMPARTIENDO ILUSION


    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...




    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE MEMORIAS DE AFRICA , CHAPLIN MONOCULO NOMBRE DE LA ROSA, ALBATROS GLADIATOR, ACEBO CUMBRES BORRASCOSAS, ENEMIGO A LAS PUERTAS, CACHORRO, FANTASMA DE LA OPERA, BLADE RUUNER ,CHOCOLATE Y CREPUSCULO 1 Y2.

    José
    Ramón...

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  3. E fazes muita falta!!! mas amigos não se esquecem nem se afastam pela simples ausencia!!! ^_^•

    Lindo texto, flor ♥


    Bjinhos carinhosos...

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  4. Li suas postagens... são muito inspiradoras... Parabéns pelo Blog!!

    É muito gratificante ver colegas preocupados com a educação.

    Faça-me uma visita no http://bardopedagogo.blogspot.com/. É tudo por minha conta. rsrs

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Obrigada pelo carinho.